Segurança no manejo florestal
semimecanizado

Um bom planejamento é fundamental para identificar os riscos, estabelecer as medidas de controle e criar um ambiente seguro

A segurança é, no meu ponto de vista, um dos 3 pilares fundamentais do manejo florestal. O meu primeiro contato com a segurança do trabalho voltado ao manejo de vegetação, se deu no ano de 2007 quando iniciei minha carreira profissional como responsável técnico ambiental em uma empresa do ramo de distribuição de energia elétrica.
 
Nessa atividade, além da responsabilidade técnica, eu acompanhava e orientava as equipes de poda e supressão de árvores, bem como a roçada de vegetação que se encontravam próximas à rede de energia elétrica. Durante essa atividade, eu percebi uma deficiência quanto a aplicação dos procedimentos de segurança, principalmente em relação a operação das máquinas.
 
A partir dessa verificação, eu busquei uma especialização em segurança do trabalho e posteriormente aperfeiçoamento na operação e manutenção da motosserra, motopoda e roçadeira junto às fabricantes mundiais Stihl e Husqvarna.
 
Com posse de todo esse conhecimento, passei a, além de acompanhar, também treinar as essas equipes de manejo de vegetação quanto às técnicas corretas de manejo florestal e operação segura das máquinas. Esses treinamentos estenderam-se a instituições como Senar, Senai, Sesi, e concessionárias de energia como a RGE Sul, CEEE e Energisa.
 
Depois de quatorze anos ministrando esses treinamentos, eu constatei que 100% dos acidentes envolvendo a motosserra na supressão de árvores são decorrentes do comportamento do operador. Quando tratamos de comportamento, podemos destacar os mais comuns e nocivos à essa atividades, que são:
- falta de conhecimento
- distração
- pressa
- cansaço
- máquina inadequada
- falta de planejamento
 
Partindo desses dados, quando elaboramos um bom planejamento de manejo florestal, o primeiro item a se considerar é justamente o estado geral do operador da máquina. Nesse ponto, precisamos verificar primeiramente o estado de saúde desse profissional. Para que ele execute um trabalho seguro,
precisa estar bem fisicamente (sem dores, enfermidades ou desconfortos), emocionalmente (atenção plena na execução do trabalho) e psiquicamente (sem enfermidades psicológicas, como ansiedade ou depressão, por exemplo).

Além disso, o operador deve cumprir as obrigações legais como ser maior de 18 anos, possuir curso de operador de motosserra, motopoda e roçadeira de acordo com as normas regulamentadoras, ter a sua máquina regularizada junto ao órgão ambiental e estar de posse e fazendo o uso correto de todos os EPI (Equipamentos de Proteção Individual) obrigatórios para tal atividade.
 
Vencida essa etapa, passamos para a inspeção das máquinas. É aqui que são verificados os dispositivos de segurança obrigatórios, testes de funcionamento, modelo de máquina compatível com a atividade a ser executada, abastecimento correto e suficiente e estado geral da corrente e conjunto de corte.
 
Por fim, fazemos uma análise minuciosa do ambiente de trabalho. Clima, condições geográficas, avaliação das árvores, presença de animais peçonhentos e insetos, presença de benfeitorias ou barreira física, rota de fuga do operador e equipe, distanciamento seguro entre os membros da equipe, são alguns pontos observados.
 
Dessa forma, cumprindo detalhadamente cada procedimento, nós seguramente teremos um ambiente livre de acidentes no manejo florestal. Um acidente ou incidente de trabalho é sempre motivo de extrema atenção para trabalhadores, responsáveis técnicos e gestores de empresas. É um sinal grave de que existe alguma falha nos procedimentos de segurança que
precisam ser reparados imediatamente.
 
Não espere acontecer um fato grave para tomar medidas de reparação. Muitas vezes as consequências são irreversíveis para as pessoas, empresas e meio ambiente.
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O Uso de EPI no manejo florestal com motosserra

EPI não evita acidente. Ele atua como a última barreira para minimizar uma lesão em decorrência de um acidente.

Em atividades florestais, o uso dos EPIs adequados, além de fundamental para um trabalho seguro, é obrigatório pela legislação trabalhista. A função dos equipamentos de proteção individual nessa atividade não é evitar um possível acidente, mas sim atuar como a última barreira de proteção disponível ao trabalhador para minimizar uma lesão no caso de um acidente ou incidente.

A obrigatoriedade do uso dos equipamentos de proteção individual - EPIs está descrita na Norma Regulamentadora nº 06 – Equipamentos de Proteção individual. No Anexo I dessa mesma norma estão listado os tipos de EPI a serem utilizados.

Esta lista é baseada nos riscos que o profissional está exposto ao operar uma motosserra na supressão ou poda de uma árvore, corte de lenha, desdobramento de madeira, atividades silviculturais, colheita floresta ou no manejo florestal, como por exemplo: ferimentos ocasionados pelo contato com o conjunto de corte da máquina em movimento, queda de galhos, serragem e partículas volantes, contato com animais peçonhentos, entre outros.

A tabela abaixo evidencia as partes do corpo humano mais atingidas pela própria motosserra ou por objetos lançados ao corpo durante a operação da máquina. Esses dados foram obtidos de pesquisas desenvolvidas por Sant’Anna & Malinovski (2002) Fenner (1991), Haselgruber & Grieffenhagen (1989); Forstwirtschaftliche Zentralstelleder Schweiz e Stephani (1987), Heck Junior (2014) e INSS (2002).

Partes do corpo atingidas em função da atividade com motosserra:
Cabeça: 17%
Mão e Braço: 26%
Tronco: 13%
Perna: 30%
Pé: 14%

Para a proteção da cabeça é indispensável fazer o uso de um capacete de aba frontal, com uma jugular e carneira bem ajustada ao corpo do operador. Esse capacete atua na proteção contra impacto de objetos sobre a cabeça. Quem trabalha próximo a redes de energia elétrica, deve fazer uso de um capacete contra choques elétricos. Utilizar ainda um óculos para proteção da visão e um protetor facial para minimizar o impacto de partículas volantes no rosto. Para a redução do ruído, utilizar um protetor auricular tipo concha.

Para as mãos fazer uso de luvas de proteção contra agentes abrasivos, perfurantes e escoriantes. No braço e no tronco é importante fazer uso de uma camisa anticorte que tem por objetivo impedir que a corrente da motosserra em movimento toque o corpo do operador. Essas regiões estão muito propensas a serem atingidas em função do rebote.

Nas pernas é fundamental fazer uso da calça anticorte para impedir que em um contato acidental, a corrente da máquina em movimento atinja as pernas do operador. As roupas de proteção anticorte possuem uma tecnologia que quando em contato com a corrente da motosserra em movimento travam instantaneamente o conjunto de corte da máquina.

Como complemento a calça é indicado também fazer o uso de perneiras (caneleira) que atenuam o impacto contra um objeto abrasivo ou escoriante, e atuam ainda contra picada de animais peçonhentos, principalmente cobras.

Para a proteção dos pés é importante o uso de um coturno florestal com biqueira de aço ou composite podendo ainda estar presente a proteção do metatarso. Seu solado também deve ser antiderrapante e antiperfurante.

Dependendo da região geográfica de atuação do profissional, se faz ainda necessário o uso de capuz ou balaclava com o objetivo de proteger o pescoço e nuca das alta temperatura e raios solares, evitando possíveis queimaduras.

O trabalhador florestal deve estar munido de todos os EPIs indicados na NR 06. É dever do empregador disponibilizar e orientar quanto ao uso correto de cada um deles. Já o uso dos equipamentos de proteção individual durante a atividade florestal é de responsabilidade do próprio trabalhador.

E para finalizar vou deixar uma dica que aprendi acompanhando equipes de manejo de vegetação em diferentes regiões do Brasil: procure usar e/ou oferecer aos seus colaboradores EPIs que sejam confortáveis. O conforto é fundamental para que o trabalhador use o EPI corretamente e sinta-se seguro com ele. Um EPI que cause algum tipo de desconforto, desvia a atenção e o foco do operador da motosserra, podendo prejudicar o sucesso do trabalho.
Exemplo de imagem
Registro de um treinamento, em que o Gabriel analisa uma supressão realizada por um dos alunos. Foto de arquivo pessoal.
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O custo do erro no manejo florestal em rede de energia

Seguir a ABNT NBR 15688, fazer um bom planejamento e ter sempre em mãos o procedimento de segurança da empresa estão entre as principais ações para reduzir os riscos.

O manejo de árvores em áreas florestais, sobretudo para fins comerciais, próximo a redes de distribuição de energia elétrica requer muita atenção e cuidado pelas equipes de corte, seja através do sistema mecanizado com auxílio de harvester ou semimecanizado com o uso da motosserra.
 
Além dos riscos inerentes ao trabalho, temos ainda um perigo adicional e invisível que é o choque elétrico. Podemos pensar também que no caso de uma árvore, durante o manejo, cair sobre a estrutura elétrica, teremos um desabastecimento de energia, podendo trazer sérios prejuízos para a população adjacente. Nesse caso ainda, os custos para o reparo da estrutura serão repassados para o causador do transtorno, ou seja, a empresa florestal, podendo chegar a R$ 10.000,00 para um vão de 50 metros aproximadamente.
 
E como podemos evitar ou minimizar os riscos dessa atividade? Em primeiro lugar, se observarmos ABNT NBR 15688 – 2012, que é a norma que trata do distanciamento das redes de distribuição aéreas de energia elétrica, vamos entender que existe uma faixa de segurança para redes de distribuição rurais de no mínimo 15m, sendo 7,5m para cada lado da rede. Nessa faixa, chamada de faixa de servidão, só é permitido o plantio de vegetação rasteira.

Exemplo de imagem
Imagem  ilustrativa.

Caso seja preciso o manejo em uma árvore dentro dessa faixa, a atividade deve ser muito bem planejada e com a equipe bem preparada, como qualquer trabalho que envolve o corte de árvores. É muito importante que a empresa florestal além de manter os seus colaboradores em permanente capacitação e realizando periodicamente os acompanhamentos das atividades em campo pelos gestores, tenha um procedimento de segurança detalhado de tudo aquilo que é realizado em campo.

É nesse documento que estará descrito como o trabalhador deverá se comportar em campo em povoamentos próximos a rede de energia, a técnica de corte a ser utilizada e uso de equipamentos de proteção coletiva e individual, por exemplo.

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